Sim, é verdade: eu encostei-me a ti e abracei-te, nessa primeira noite na nossa tenda, no camping de Ghardaia, quando nos deitámos para dormir as duas horas que faltavam antes de partirmos para o deserto.
Encostei-me a ti e abracei-te sem sequer pensar no que estava a fazer: apeteceu-me, senti que não havia nenhuma razão para não o fazer. O teu cansaço comoveu-me e a tua delicadeza, ao deixares tanto espaço livre para mim ao lado do teu saco-cama, foi irresistível. E vi-te exausto, depois daquelas dez horas ao volante (culpa tua, que tinhas decretado, logo em Espanha, que eu não sabia guiar e que nunca mais me passarias o volante - e cumpriste até ao fim, durante cinco semanas!). Eras tão diferente de mim, tão diferente daquilo a que estava habituada! E, estranhamente, estupidamente talvez, dei comigo a sentir uma espécie de segurança, de conforto desconhecido, naquele entendimento que impuseste e para que não vinha preparada: tu guiavas e eu animava-te, tu decidias e eu apoiava, tu cozinhavas e eu punha a mesa. E, agora, tu adormecias como uma pedra, destroçado e exposto sem defesas, e eu deitei-me ao teu lado e abracei-te. Não, não era disto que eu estava à espera: não estava à espera de te ver assim, caído sem defesa nem disfarce, e de sentir esta vontade incrível de me encostar a ti, como se tu fosses uma parede e eu o seu contraforte. Mas agora não vou pensar nisso, vou só dormir assim, abraçada a ti - e amanhã, se vier a propósito, falamos disso.
Encostei-me a ti e abracei-te sem sequer pensar no que estava a fazer: apeteceu-me, senti que não havia nenhuma razão para não o fazer. O teu cansaço comoveu-me e a tua delicadeza, ao deixares tanto espaço livre para mim ao lado do teu saco-cama, foi irresistível. E vi-te exausto, depois daquelas dez horas ao volante (culpa tua, que tinhas decretado, logo em Espanha, que eu não sabia guiar e que nunca mais me passarias o volante - e cumpriste até ao fim, durante cinco semanas!). Eras tão diferente de mim, tão diferente daquilo a que estava habituada! E, estranhamente, estupidamente talvez, dei comigo a sentir uma espécie de segurança, de conforto desconhecido, naquele entendimento que impuseste e para que não vinha preparada: tu guiavas e eu animava-te, tu decidias e eu apoiava, tu cozinhavas e eu punha a mesa. E, agora, tu adormecias como uma pedra, destroçado e exposto sem defesas, e eu deitei-me ao teu lado e abracei-te. Não, não era disto que eu estava à espera: não estava à espera de te ver assim, caído sem defesa nem disfarce, e de sentir esta vontade incrível de me encostar a ti, como se tu fosses uma parede e eu o seu contraforte. Mas agora não vou pensar nisso, vou só dormir assim, abraçada a ti - e amanhã, se vier a propósito, falamos disso.
No teu Deserto, de Miguel Sousa Tavares, Cap. X


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