30.1.09

O rapaz da guitarra

Parte II

Quando saiu da sala e fechou a porta, teve que parar. A sua respiração estava ofegante e o seu coração batia incontrolavelmente como se quisesse sair do seu corpo. Ela conseguia ouvi-lo, de tão forte que batia. 'Que olhar teria sido aquele? Será que significou alguma coisa? Ou será que não significou absolutamente nada?'. Interrogações surgiam sem parar na sua cabeça, sentia-se confusa. Ficou parada durante pelo menos um minuto para se abstrair destas ideias e deixar que a respiração abrandasse. Quando se preparava para andar e descer as escadas, ouviu a porta a abrir-se e sentiu-se a ser puxada pelo braço para trás. A sua respiração acelerou novamente.
- Espera, não vás - sussurrou-lhe - preciso de falar contigo.
- Sobre o quê? Nem nunca falaste comigo... - respondeu-lhe, fingindo-se despreocupada.
- Isso porque nunca me chamaste a atenção. - notava-se seriedade nos seus olhos.
O coração não parava de bater rápido. O barulho estava a tornar-se insuportável nos seus ouvidos. 'Eu não estou a ouvir isto' disse para si. Recompôs-se.
- E hoje chamei?
- Exacto. Não só hoje mas já há algumas semanas. Só hoje é que ganhei coragem para te confrontar. Reparei como me olhaste na aula e isso deu-me a confiança de que precisava para falar contigo.
- Como é que eu te olhei na aula?
- Não te sei bem explicar mas senti qualquer coisa no teu olhar...
- Não sei do que estás a falar, eu nem sequer olhei para ti. - o coração dela parecia que lhe ia saltar do peito.
- Olhaste sim! Não disfarces... E deves ter reparado que eu também te olhei por alguns momentos.
- Não, por acaso não notei nada. - mentiu.
Ele, determinado, insistiu.
- Notei eu, notei uma ligação, percebes? Principalmente na altura em que trocámos olhares quando saíste da sala há uns minutos.
Ela não acreditava no que estava a ouvir. Estaria a sonhar? Estava tão estupefacta que nem conseguiu dizer nada. As suas mãos tremiam de nervosismo dentro dos bolsos do casaco. No entanto, ele prosseguiu:
- Vou ser directo - a sua boca abriu-se num sorriso verdadeiramente encantador.- Simplesmente, já não consigo conter mais isto.
- Está bem, então diz lá!
Delicadamente, ele tirou as mãos dela dos bolsos e agarro-as junto a si. Ela sentiu-se desfalecer mas manteve-se firme, de pés bem assentes no chão.
- Penso que me estou a apaixonar por ti. Pronto, está dito! - A sua expressão tornou-se áspera, esperando impacientemente pela resposta dela.
- O quê?! Estás a gozar comigo, não estás?! - riu-se. Isto era definitivamente um sonho e ela não queria acordar.
- De maneira nenhuma, eu não brinco com coisas sérias. - A sua expressão intensificou-se.
- E como é que eu posso saber disso? Eu nem sequer te conheço!
- Pois não. É uma das coisas que eu pretendo fazer de futuro, se tu quiseres e... - hesitou - me deixares.
- Mas diz-me, como é que é possível? Tu nem me conheces! Ves-me apenas uma vez por semana e nunca falaste comigo. Não sabes nada sobre mim! Como é que estás apaixonado por mim?
- É possível sim. - voltou a sorrir. - E eu sou a prova viva de que isso pode acontecer. Estou mesmo apaixonada por ti, acredita!
- É difícil de acreditar... - respondeu - Eu...
Ele interrompeu-a.
- Eu só quero saber uma coisa. Eu sei que aqueles olhares na aula não tiveram só significado só para mim. Tenho a certeza que senti o mesmo vindo da tua parte! Só quero que me respondas, sinceramente, se estou certo ou errado. - O seu olhar transmitia agora insegurança e medo. Medo da sua reacção.
Ela só queria que aquele sonho continuasse para sempre, não queria sair dele. Como é que a realidade podia ser tão perfeita? Não podia, aquilo não era verdade. Mas, de repente, ele colocou as suas mãos quentes atrás das costas dela e puxou-a para si. Foi aí que ela se apercebeu. Aquele toque, aquele momento, aquele sentimento, o que ela sentiu. Nada daquilo não poderia ser um sonho. Os sonhos não tinham aquelas percepções tão reais nem toques tão sentidos e fortes.
Despertou então de um sonho que nunca existiu para uma realidade que sempre existiu, apenas não estava diante dos seus olhos.
Deixou-se levar... como poderia recusar? O rapaz com que sempre sonhara estava a declarar-se a ela. A ela. Nem conseguia acreditar. Rendeu-se.
- Estou à espera - insistiu impaciente - Estás há tanto tempo calada e não consigo entender se isso é bom ou mau. Por favor, diz qualquer coisa. Não me deixes nesta inquietação!
- Só me resta dizer-te... - as palavras estavam presas na sua garganta mas tinham que sair, aquela era a sua oportunidade, finalmente chegara - que sinto exactamente o mesmo que tu, desde o primeiro momento em que te vi. - sorriu envergonhada.
Ele sorriu de volta. Os olhos de ambos iluminaram-se.
Não eram precisas mais palavras nem mais suspiros. Lentamente, ele pegou numa madeixa do cabelo dela e coloco-a por detrás da sua orelha. O seu toque fazia-a estremecer. Sentiu um arrepio na espinha. Então, ele aproximou-se cada vez mais, agarrando no seu delicado rosto. Ambos conseguiam sentir a respiração um do outro de tão perto que estavam. Ela, por sua vez, pôs nervosamente os seus braços à volta do pescoço dele.
Tudo foi selado com um beijo, com todo o sentimento e inocência de um amor acabado de nascer.

5 comentários:

  1. falta-me a força... e não sei onde a ir buscar :/

    que texto, gostei mesmo :3
    beijinho *

    ResponderEliminar
  2. Ai, obrigada. Mesmo. *-*
    Eu gosto deste.
    Um beijinho.

    ResponderEliminar
  3. Sim aconteceu ;;

    ''Tudo foi selado com um beijo, com todo o sentimento e inocência de um amor acabado de nascer.'' Amei *-*

    ResponderEliminar
  4. recebeste o testamento que eu e escrevi? --,
    não tenho a certeza que o tenhas recebido xD
    beijinho*

    ResponderEliminar
  5. que lindo $:

    está mesmo perfeito, tão querido $:

    muito bem.

    um beijinho, Indie Cindy.

    ResponderEliminar

html stats